(Experimento em literatura erótica. Leia por sua conta e risco...)
Era sempre assim: ele olhava para ela e ela sequer imaginava o desejo por trás daquele olhar. Era difícil, para ele, expressar qualquer coisa. Ela era tão meiga, tão recatada, que, qualquer esboço de atitude mais íntima, despertaria, no mínimo, uma agressão física suave – em prol dos bons costumes; da defesa pessoal. Uma jovem dama defendendo-se de um maníaco sexual, um “tarado” por assim dizer.
E assim foi-se mais um dia. Desejo. Fogo abrandado pela postura social a qual ele aceitara como membro “normal” da sociedade. Libido afogada pelas profundas águas da moral e bons costumes. Sim. Uma jovem daquelas deveria ser tão pudica que esnobaria qualquer ação menos “avergonhada”. Seria terrível, para ele, por um ato involuntário, perder a proximidade que tinha dela. Aquele perfume que lhe entrava nas ventas, a cor de seus olhos tão próximos dos seus. Era castigo ficar tão perto daquela pele quente, mas tão longe de suas pernas... Abraçar-se com ela, beijar sua face, dar “bom dia” (ou boa noite...) apenas, era prazeroso, mas completamente incompleto. Ele queria “mais”. Muito mais, aliás.
E os dias foram se repetindo. Um atrás do outro. Como que o provocando. Sua boca salivava como um animal faminto à espera da presa. Desejava a outra boca como água, num deserto ao meio-dia. Por vezes, flagrou-se com a mão entre as próprias pernas, tentando ocultar o desejo, a tara, a fissura, a secura... tesão, enfim, que sentia por aquele corpinho de ninfeta. Tão magrinha... Mas tão sensual, que qualquer marmanjo mais exigente deixaria passar, sem saber o quanto era gostoso de ver. Quiçá, tocar! Lamber. Beijar... morder... arranhar. Gozar. E fazer gozar. Seria o máximo que ele poderia se dar. E ela, claro, iria compartilhar. Mas estava tudo na sua cabeça. Nas duas. E qualquer um poderia ver, se ele não tomasse uma atitude.
Não dava para disfarçar. Pegou uma pasta, escondeu o desejo de todos e saiu da sala apressado. Foi direto ao banheiro. Lá ele poderia esperar tudo se acalmar. “Poderia”, pois a placa “fechado para manutenção” lhe pareceu uma tapa de padre, exigindo-lhe “vergonha na cara”. Não perdeu mais tempo: entrou no elevador e ficou subindo e descendo, para amenizar os pensamentos libidinosos.
Num dado momento, o elevador parou. A porta abriu. Ela entrou. Ele ficou sem graça. Novamente usou a pasta para esconder seu desejo. Pareceu dar certo, pois (mais uma vez) viu aquele sorriso sem igual. Não havia batom naqueles lábios, mas qualquer um (homem ou mulher) mataria para beijá-los. E ele queria isso. O perfume pareceu tomar conta do lugar. Faltava-lhe ar. Seus olhos pareciam embaçar, tão próximos estavam. Ele fechou os olhos e começou a rezar. Pediu para que o tempo passasse logo e o elevador chegasse ao seu destino, assim, ele poderia sair rápido. A respiração acelerou. Inspirou, expirou, contou 1, 2, 3... O elevador tinha parado. Mas, ao abrir os olhos, tudo (ainda) era escuridão.
Ela o abraçou forte. Nunca, em toda a sua vida, ele gostou tanto da falta de energia no horário de expediente. Pernas contra pernas, peito contra peito, rostos próximos... Era o paraíso! Mas estava quente feito o inferno. Não que ele estivesse reclamando, claro. - Essa seria uma boa hora para... – Mas nem teve tempo para terminar o pensamento. A tal “casta” lambeu-lhe a boca como uma gata no cio. E, sem perder mais tempo, meteu-lhe a mão entre as pernas.
- Ei! Ca-calma!
Ela lhe mordeu os lábios como se falasse “- Cala boca, porra! E me beija!”. Mas ele insistia. Não podia acreditar que aquela criatura fosse assim. Ela era tão recatada e...
- Me come, vai! Rápido! Antes que a porra da luz chegue!
Uma “santa” mesmo. Talvez essa “revelação” o tenha deixado tão acanhado. E ele se poupando tanto para não constrangê-la... Que bobagem. Era uma vadia, isso sim. Uma deliciosa vadia “em pele de cordeiro”. E rápida. Enquanto ele tentava entender o que se passava, ela já havia arrancado seu cinto e baixado suas calças.
Inexplicavelmente, pensou em poesia. Aquela boca era... era... era... Nun-nunca ni-ninguém lhe... lhe... lhe chu-chupou daque-que-quele je-je-jei-jeito. Era... era... era... Ahhhhhhhhhhhhhh... Poesiaaaaaaahhhhhh!...
- Minha musa do sexo! – gritou. – Ela parou. Ele calou. Ela sorriu. Ele a ergueu. Os dois se olharam.
- Prova que me deseja... – Disse ela, metendo a língua, ainda viscosa, em sua boca. Ele provou, esfomeado, sem se preocupar com “porra nenhuma”. Sinceramente?
Naquele momento (de tormento)
Toda a "poesia", o que seria?
Ah! Seria... como uma punheta:
Prazer mesmo, só pra quem fazia!
Toda a "poesia", o que seria?
Ah! Seria... como uma punheta:
Prazer mesmo, só pra quem fazia!
O beijo já não bastava. O sexo invadiu o elevador. Ela gritava. E como gritava! Era uma delícia ouvir aquela safadinha gemendo feito doida, enquanto o cavalgava. Era selvagem. Insaciável. Mordia seu pescoço, arranhava suas costas, pedia pra apanhar...
Isso ele não imaginava. Mas fazia. Porque ela pedia. Mandava. Exigia. E podia ser o último dia da sua vida. Ele queria aproveitar. Estava quase lá (de novo). Mas ela parecia não se saciar.
A luz voltou.
- Nãããããããão! Não para! Não para! Não para!... – Ela gritava.
- Mas...
- Mas, o caralho! Eu quero gozar!
E ele continuou, mais rápido ainda. Era uma corrida contra o tempo. A qualquer momento o elevador seria chamado.
- Vai! Vai! Vai! Vaaaai!...
Alguém chamou o elevador no térreo.
- Puta que pariu! – esbravejou ela. E meteu a mão no botão de emergência. - Vai, cara! Eu tô quaaaaase!... – O elevador ficou parado entre andares. Isso lhes daria mais alguns minutos...
Quando abriram o elevador, estavam no chão, suados feito chaleiras. Ela, ruborizada; ele, desmaiado em seus braços, pálido feito um cadáver. Quando tomou consciência, ela tinha sumido.
No outro dia, parecia que nada tinha acontecido. Mas ele queria mais. No intervalo, quando ela ia pegar as escadas, ele ofereceu o elevador.
- Ué? – Ela questionou. – Você não tem medo?
- Medo? Eu? Com você eu não tenho medo de nada!
- Mesmo? – Ela riu. – E o que foi aquele “desmaio” ontem, hein?
- Ora! Depois de tudo o que você me fez, gostosa, como é que eu ia aguentar em pé? – E tentou abraçá-la.
- EU? – E afastou-se. - Eu não fiz nada! Quando a luz do elevador apagou, você simplesmente desmaiou! Hunf! Passe bem! E não fale mais comigo! Tarado!
Ele imaginou essa reação um dia. - Não é possível... - Desmaio? - Não, não pode ser... – Sonho? - Puta que pariu, que merda!... – Imaginação? - Ah! Desejo filho da puta... - Nada poético, aliás. E “poesia”, sem alguém para lê-la, é como uma punheta: só dá prazer para quem faz.
(Guilherme Ramos, 07/12/2009, 19h45)

