sábado, 11 de setembro de 2010

A Pergunta




Tudo começou com uma pergunta. Que ele não soube responder.


Que drama! Como poderia haver pergunta sem resposta? Isso não estava certo. Ele precisava tomar uma providência. Não responderia somente àquela questão, mas a TODAS. Sem exceção. Porém, para isso, era preciso buscar conhecimento. Em qualquer parte, de qualquer modo, a qualquer custo. E foi o que fez: dedicou toda sua vida à pesquisa. Pesquisou, pesquisou, pesquisou... sem parar.


Não demorou muito, já sabia de cor todas as histórias da História, as dúvidas do Português, os limites da Geografia, os problemas da Física, as nuanças das Línguas Estrangeiras, os casos da Sociologia, os desafios da Matemática, os segredos da Química, as novidades da Biologia e um sem-número de coisas que iam além da (nossa) vã Filosofia. Mas havia outras áreas e ele, incansável, prosseguia...


Nada lhe passava despercebido: da arte rupestre à arte contemporânea, da Tecnologia da Informação e Comunicação à Metafísica, da Teologia à Cientologia, da Culinária à Mecânica, Hidráulica, Eletrônica, Moda, Publicidade, Arquitetura, Medicina, Direito, Engenharia, Música, Ocultismo... e tantos outros assuntos capazes de fazer um careca arrepiar sua peruca! Fato: ninguém sabia mais do que ele. Seu QI era uma luminiscata!


Quem conseguiria memorizar tanta coisa? Eram nomes, fatos, feitos, datas, leis, endereços, telefones, fórmulas, filmes, livros, melodias... Só de pensar, qualquer um perderia o fôlego. Ou o juízo. Falando nisso, algo de estranho acontecia: a memória lhe pregava peças. Estaria, sua cabeça, cheia demais? Nas artes, por exemplo, confundia Monet com Manet – o que era inadmissível! E depois de quinta-feira? O que vinha mesmo? Sexta, sesta ou cesta? Ah! Problema, problema, problema! Tinha medo, agora, de retificar e não conseguir ratificar depois. Eis, pois, o (novo) drama!


E ninguém podia ajudar. Dependia dele – e só dele – uma solução. Foi ele quem começou tudo isso, toda essa confusão. Coube-lhe, no pouco juízo que lhe restara, uma ideia atroz:


“- E se eu me desocupasse das coisas sem importância? Dos tempos de escola? Daquilo que não me serve, que ficou para trás? Quem sabe eu não ganho espaço na cachola, para aprender um pouco mais?”


E assim o fez. Não seria difícil, pois o que lhe veio logo à mente foi...


“- A primeira dor-de-cotovelo.”


Quem, diabos, iria querer lembrar a primeira decepção amorosa? Não, não, não. Totalmente dispensável. E aproveitou para se esquecer da segunda, da terceira, da quarta...


E, já que estava remexendo nos arquivos descartáveis da escola, decidiu apagar as lembranças das notas baixas que tirou, dos gols que perdeu, das briguinhas entre amigos, das vezes que ficou sozinho num baile sem ter ninguém pra dançar, do sorvete que não provou – porque alguma amiga mais afoita o derrubou no chão...


“- Pensando bem, era melhor apagar o nome dela, também!”


Daí, foi um pulo apagar a primeira queda de bicicleta, a dor de barriga por causa do bolo de chocolate quente que comeu – sozinho, os presentes que não ganhou no natal, as queimaduras de sol no carnaval, as dores de dente e de ouvido... Nossa! Quanta coisa inútil tinha guardada na cabeça! E continuou apagando: o vestibular perdido, as broncas do chefe, a primeira demissão, o casamento que não deu certo, as ressacas titânicas...


... Até que não havia mais nada – ruim – para esquecer.


Que maravilha seria essa notícia – se ele fosse um cidadão comum. Mas, na situação em que se encontrava, sua conquista era uma derrota. O que fazer? Havia ainda muito para assimilar, conhecer, experimentar...


Só lhe restou apagar alguma coisa boa – mas nem tanto – de forma a liberar espaço na cabeça. Mas o quê? Tudo parecia tão importante! Não foi fácil decidir, pois quase nada lhe vinha à mente...


“- A primeira paixão.” – Pensou, depois de escolher cuidadosamente.


Já fazia tanto tempo! E, hoje em dia, tantas aventuras lhe ocorreram que não seria problema esquecer, por exemplo, o primeiro beijo. De lá para cá, beijou tanto que também esqueceu o segundo, o terceiro, o quarto...


Daí esqueceu as notas altas que tirou na escola, os gols que marcou, as pazes após briguinhas bobas entre amigos, as vezes que dançou com a garota mais bonita do baile... e um sorvete que provou – porque essa mesma amiga, apaixonada, ofereceu-lhe...


“- Uma pena, meu bem... Mas é preciso apagar o seu nome também.”


Foi preciso apagar a lembrança de quando aprendeu a andar de bicicleta, do bolo de chocolate que comeu – sozinho, dos presentes que ganhou no natal, das brincadeiras ao sol no carnaval, do alívio que sentiu após sair do dentista e do médico... Nossa! Quanta coisa (ainda) tinha guardada na cabeça! E continuou apagando: a aprovação no vestibular, os elogios do chefe, o primeiro salário, a festa de casamento, os porres homéricos...


... Então, cada vez mais tentado, foi esquecendo uma coisa aqui; outra ali. E assim foi o resto de sua vida. Apagando, apagando, apagando... substituindo, substituindo, substituindo... aprendendo, aprendendo, aprendendo... Até responder TODAS as perguntas.


Menos uma:


“- Quem sou eu?”


(Guilherme Ramos, de 04/08/2010, 20h41 até 11/09/2010, 16h30. Para Hedissa, pela inspiração repentina... e para Hannah, nossa filha, que hoje faz 4 meses!)

3 comentários:

Luciana Gavazza disse...

Lindo amigo!!! Abraços!!!

Carol disse...

uau!!!!!
ameiiiiiii
em prosa..e sei que vc nao costuma escreve-las.
ficou fantasticoooo
bjus meu escritor predileto

Vanessa Pollon disse...

Muito bonito, adorei!!!!

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