segunda-feira, 3 de junho de 2013

Cegueira


Mãos corriam – para lá e para cá – tocando paredes, vãos de portas, obstáculos diversos e não encontravam respostas para a pergunta “onde ele está?”. Isso a deixava cada vez mais confusa. Curiosa. Constrangida. Pois nunca lhe havia acontecido algo semelhante. Jamais precisou de ajuda. De ninguém. Sempre se virou muito bem sozinha. Até aquele momento.

Estava tudo escuro em sua cabeça. Imagens não se formavam, ambientes tornaram-se desconhecidos, pessoas ficaram totalmente desfocadas. Nada. Não havia mais luz. Absolutamente nada penetrava em seus olhos. A não ser uma última imagem. Dele. De sua partida. Marcada em seus cristalinos. Tão cegante, quanto traumático. Imagem estática, congelada. Numa quase tatuagem que não lhe despregava dos olhos. Impossível qualquer outra opção de visão.

Seus dedos percorriam todos os milímetros possíveis, buscando o corpo dele, querendo traduzir suas palavras, procurar signos, metáforas, parábolas. Mas em vão. Não há significado nem significante no vazio que lhe foi imposto. Não havia braile para registro e compreensão. Não havia libras para transmissão do que sentia e queria dizer. Não havia nada. Apenas o nada. Num vazio tão cheio que a sufocava.

Atirou-se ao chão. Desconstruída. Desiludida. Desesperada. Gritava como nem sempre se vê numa hora dessas. Frágil. Como uma taça de cristal em meio à manada de elefantes furiosos. Não havia mais ninguém por perto. Ninguém para escutá-la. Para ouvi-la. Para salvá-la. Nem ela mesma. Na sua ânsia pela busca do outro, esqueceu-se de si própria. E isso lhe foi fatal.

Jurou nunca mais se deixar envolver assim. “Nunca mais” seria sua partícula temporal. Egoisticamente particular. Mas o “nunca mais” tornou-se muito tempo. Virou rotina. E, tal qual muita luz, cansou sua retina. Que começava a clarear. Pensava que o “nunca mais” – assim como o “para sempre” – demoraria mais. Tempo. Espaço. Tudo deixou de apenas ser. A questão de apenas ver, virou um completo estardalhaço.

Mãos corriam. (...) Estava tudo escuro em sua cabeça. (...) Seus dedos percorriam todos os milímetros possíveis, (...) atirou-se ao chão. (...) Jurou nunca mais se deixar envolver assim. (...)

Era um ciclo sem fim.

Como a saliva queimava-lhe a boca, lágrimas queimavam o que lhe restou dos olhos. Estava cega. Novamente. De paixão. Uma cegueira rubra. Como o sangue que lhe fervia o corpo. Outros sentimentos, por hora, eram meros tons de cinza.

(Guilherme Ramos, 03/06/2013, 01h34.)

[Mais um conto da série... “Sobre Mulheres e Fêmeas”...]

Imagem: Google.

1 comentários:

Carol disse...

Muito
Muito
Muito bom!!!!

Parabéns amigo! Isso ficou visceral.

bjus
Carol

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