sexta-feira, 17 de maio de 2013

Moribunda


Estava velha. Cansada. Acabada. Tudo de pior. Arquejada, aquela figura traduzia tudo de mais horrendo que a história da humanidade poderia presenciar. E, a cada segundo que se passava, a cada fração cronológica que se formava, parecia piorar. Mais e mais e mais.

A ação do tempo foi-lhe negativa. Assim como foram negativas todas as suas experiências. Família, escola, faculdade, trabalho, outra família. Aliás, outras famílias. Várias. Parecia ter se casado muitas vezes. Ano após ano. Divorciosamente. Viúvamente. E, a cada necro-matrimônio, a responsabilidade lhe corroia. Mais e mais e mais.

Não teve muita sorte. Desgastes aconteceram tantas vezes, que perdeu a conta. Para que lembrar? Lembrar de que? Das traições? Das mentiras? Das faltas de tempo? Das discussões? Das omissões? Das... tantas coisas. Que não valeria a pena registrar. Resgatar. Relembrar. Mais e mais e mais.

Redescobrir-se era uma missão difícil. Quem era ela? De onde veio? Para onde iria? Iria? Porque do jeito que as coisas iam, em nada daria. Triste fim. Triste verdade. Triste. Verdade. Mais e mais e mais.

Era triste. Solitária. Sozinha, numa multidão de gente conhecida. Mas preferia isso a estar mal. Acompanhada, sentia-se pior. Preferia estar só. Não era depressiva. Mas tinha sintomas. “Deprês” são: traços de que poderia ser uma pessoa melhor, se quisesse. Mas se deixava levar pelas negativas dos outros. Pelas (más) vontades dos outros. Pelos outros. Pobre criatura. Pobre. Criatura. Mais e mais e mais.

Tontura. Era o que sentia, quando tentava ser feliz. Ser feliz lhe dava náuseas. A ânsia de vômito sobrepujava qualquer sorriso que lhe estampasse a cara. A cara de pau que insistia em usar - como se fosse sua vontade real - causava-lhe cicatrizes. Na alma. E isso, também, marcou sua pele. Mais e mais e mais.

E o que mais? Ah! O sofrer. A angústia, seu sangue, percorria-lhe o corpo esquálido num batimento cárdio-sufocante, beirando a arritmia. E a cada milimétrico avanço do ardente líquido, só lhe restava converter-se em suor e lágrimas sem sentido. Coisa de gente doida. Coisa de caso perdido. Mais e mais e mais.

O coração já não mais existia. Era uma bomba. Literalmente. A cada novo “bater”, o corpo padecia como uma escrava no tronco. E as chagas abriam-se facilmente, na pele tão sofrida. Ferida. Fendida. Fedida. A necrosar. Independentemente de ser libertada ou ser morta, a moribunda possuía marcas permanentes – e membros a amputar. Mais e mais e mais.

Então, parou de desenhar. Rasgou a folha A3 de papel canson em pedaços. Atirou-os na lixeira, como alguém que se livra de um imenso fardo. Como se faz com um devorador de pecados. E recomeçou o autorretrato – de sua alma. Árdua tarefa, para alguém de vinte e poucos anos. Bem vividos. Só que não. Menos e menos e menos...

(Guilherme Ramos, 17/05/2013, 18h29.)


[Mais um conto da série... “Sobre Mulheres e Fêmeas”...] 

Imagem: Google (Dürer - autorretrato com ligadura).

1 comentários:

Carol disse...

E não somos todas assim? Mulheres e fêmeas?
Somos sim!
Perfeito texto!!

bjus

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