quinta-feira, 9 de junho de 2011

Como se Chamaria? (Parte 1)

1.

Seis horas da manhã. Hora de acordar? Não... Já estava na rua, no ponto. De ônibus. Num claro sinal de penitência pessoal. Aguardando o açoite do feitor coletivo, o ônibus.

Ônibus lotado é, sem maior exagero, um pedaço do inferno. Um pedaço pequeno, pra tanta gente, diga-se de passagem. E por falar em “passagem”, como você paga tanto, por tão pouco percurso? Ah! Ossos do ofício. Sou obrigado, todos os dias, a visitar o inferno, pois preciso chegar ao trabalho cedo, antes dos outros. Mania antiga. Mas, ainda, atual.

Mas ônibus, também, é uma empresa ambulante. É um dos poucos exemplos de instituição que, ao abrir a porta, você é recepcionado pelo setor de direção. Porém, pode ser cruel: em poucos passos, já é interpelado pelo setor de cobrança.

Passados os dois setores, restava-me, agora, escolher: ficar em pé na “área VIP” (idosos, gestantes e deficientes físicos), até que o setor de cadeiras desocupasse algum milímetro ou tentar atravessar a muralha de pessoas pela frente. Para meu azar, fui o primeiro a subir no coletivo. Daí, a osmose de corpos me comprimia contra a catraca e só puder seguir, impossivelmente, para frente, pisando em pés, cutucando costas, empurrando aqui e ali, para poder me empoleirar numa das alças do corredor central, pelourinho do trabalhador contemporâneo.

Ar-condicionado? Sim, chama-se “janela aberta”. Porém, como era meu dia de sorte, todas precisaram ser fechadas, pois uma forte chuva veio e acabou com a vã esperança de conter o suor que me corria braços, pernas e costas, num horror salobro que estragaria o melhor dos dias. O que não era o caso. Não “era”, pois em meio ao sofrimento dantesco, um sorriso destacou-se como estrela em noite escura...

Não um sorriso qualquer, apesar dos dentes perfeitos, da boca carnuda, ressaltada por batom claro. Some-se isso à maquiagem leve, aos olhos com rímel e ao cabelo bem penteado, intocável. Pelo visto, aquela senhora devia ter subido a bordo logo no início da viagem, pois era impossível para alguém manter-se na linha, com tantas almas apinhando-se.

E uma dessas almas era eu! E era a mim que a luz daquele sorriso se dirigia. Seu olhar amortecia meu cansaço, minha falta de alegria em estar ali. Mas aquela senhora, em carrara esculpida pelas mãos do Divino Artífice, tornava tudo diferente e me fez ver que, para se conseguir algo bom, era preciso vencer obstáculos. E isso era tudo o que eu tinha pela frente...

Tentei aproximar-me, mas a maré de gente contrária aos meus desejos me empurrava para trás, cada vez mais. Mesmo assim, decidi romper com a lógica de que mais de um corpo não poderia ocupar o mesmo lugar no espaço. Foi quando um lampejo de razão veio à minha mente, movida pela emoção: aquela criatura, tão divina, tão maravilhosa, me pareceu familiar. Sim! Eu a conhecia! Mas seu nome me fugia. Deus! Era pouco o tempo! Eu me aproximava. Ela esperava. Mas e ela? Como se chamaria?

(Guilherme Ramos, 31/05/2011, às 11h07, depois de inspiração repentina, ao tomar um ônibus – não tão lotado quanto no conto – durante mais um dia de trabalho...)

2 comentários:

Jr Vilanova disse...

Criatividade É o seu forte... e a poesia a sua fortaleza!

Adorei o conto (conto?), você bem disse que isso aconteceria!

Me chama quando tiver novidades!
Bjão.
Jr.

Carol disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk
muito bom amigo!
foge do que voce costuma escrever. Contudo ficou a sua cara.
muito bom mesmo!

Postar um comentário

Sua participação aqui é um incentivo para a minha criatividade. Obrigado! E volte mais vezes ao meu blog...

 
;