quarta-feira, 11 de julho de 2012

Biodesgraçável



Sua vida era um saco. Plástico. Biodesgraçável. Não que fosse um exemplo de vida ruim. Mas não era boa. Vivia à toa. Ele sabia que tinha muito para mostrar. Só não conseguia. A vida lhe fôra exigente demais. Como se quisesse que evoluísse a todo custo, milhões e milhões de anos por segundo, do modo mais profundo, num processo de criação tal qual diamante: muita pressa/o; alta temperatura. Tudo isso não dava certo, não conseguia fazer um caminho reto. Enfim, era tortura.

E seguindo, foi. E mais além. Não sabia rezar. Só souber dizer “amém”. E fechou os olhos. A queda se deu, não como pluma no vácuo, mas como pedra num penhasco. Seco. Bruto. Intolerante. O seu corpo virou manchete, por ter se esborrachado, virado chiclete no meio da rua... da amargura. Acabou a tortura.

A viagem ao Além foi bem rápida, como nunca imaginada, prevista ou contada. Só lhe restou acreditar que lá, seria melhor. Mas, ao chegar no Limbo, veio um ser (estranho) rindo, para a (má) notícia lhe dar:

- Ah! Então, você é o cara que queria descansar?

- Eternamente! – Afirmou, sem pensar.

- Pois então, fique ciente, de que aqui a coisa é diferente...

- Como assim? – A preocupação era aparente.

De resposta, só recebeu uma gargalhada, daquelas de cortar a madrugada, pra não deixar mais ninguém dormir. O problema era, justamente, esse...

- Aqui, o sono eterno é uma lenda, não há espaço para descanso. Por isso aprenda: fazer-se morrer não vai adiantar de nada. Pode aceitar a madrugada como companheira eterna. Arme-se na caserna e ponha-se a marchar! Siga em frente, com os olhos bem abertos e, com a certeza corrente de que aqui, seu descrente, só vai sofrer e, mais ainda, chorar.

- Por quê?

- Porque aqui não se descansa nem se dorme, só se corre, corre e corre, para, da insônia, escapar. Aqui, você vai descobrir a razão do “passar a noite em branco”, mas não adianta entrar em pranto. Não vai lhe ajudar. Aprenda, de uma vez, que o circo (de horrores) se fez e você vai se apresentar.

E, recolhendo o rabo entre as pernas, o pobre infeliz só pôde fazer o que todos faziam. Deixou de ser mais um da multidão, pra ser apenas um. Na solidão. E assim, foi, para sempre. E mais um dia. Até virar o chefe “de lá”. Para aprender que com a vida não se brinca, mesmo ela sendo (aparentemente) vazia. Que, por pior que ela tenha sido, tinha uma razão específica. Depois de morto, não adianta construir uma basílica. Tudo vai desmoronar.

E foi assim que nasceu o velho bardo sertanejo, de sete peles, sete vidas e sete histórias pra contar (essa é uma delas – fique a vontade para as outras, imaginar!):

- Eita vida maldita! Eita morte verídica, que eu vim aqui aboiar! Pode correr, pode fugir, não adianta seu cabra, porque hoje eu vou te pegar!...

Conselho: se puder, morra em vida, de vez em quando (e renasça), para aprender que o seu maior engano pode ser uma chance de melhorar (e não uma ameaça). Caso contrário, do véu mais estranho e escuro, do alto de seu infinito rebanho absurdo, o diabo biodesgraçável (tal qual você sequer imagina) pode vir te aboiar...

- Ê boi!...

(Guilherme Ramos, de 10/07, 18h15 a 11/07/2012, 13h30, numa inspiração repentina, de escrita automática, sem nenhuma outra explicação para dar... Rssss...)

Imagem: Comunicação Verde. Todos os direitos reservados.

2 comentários:

Carol disse...

Adoro essas suas escritas. ahuahauhauha

Suely Smurfete disse...

Li seu texto e acordei. descobri o quanto é bom viver!

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